Carreiras

O mundo do trabalho

 

Consultoria de carreira

Na seção Consultoria de Carreira do caderno Empregos e Carreiras deste domingo (11/7), o candidato Alan Domingues Prata, 28, que tem paralisia cerebral leve, passou por uma bateria de entrevistas, nas quais foi avaliado por empregadores e recebeu orientações para conquistar seu primeiro emprego.

Confira, abaixo, as dicas da cantora e compositora Sara Bentes, que tem baixa visão (5%) e é repórter do Telelibras, da ONG Vez da Voz.

Consolidar uma carreira musical e alcançar o sucesso desejado já não são tarefas simples; quando se tem uma deficiência o trabalho é dobrado.

A dica que eu dou para uma pessoa com deficiência que quer ingressar na carreira musical é estudar bastante, lapidar constantemente seu talento até se sentir pronto para competir com qualquer músico, que tenha ou não uma deficiência.

Às vezes os familiares caem no erro de supervalorizar um talento de uma criança ou de um adolescente porque ela tem uma deficiência, e aí ela pode se sentir pronta antes da hora e ter grandes frustrações quando "cair no mundo".

Depois disso, é bom estar no meio de músicos profissionais, fazer e manter bons contatos, estar informado e antenado com tudo o que acontece na área e aproveitar todas as vitrines, enxergar grandes oportunidades em cada pequena canja e em cada simples convite que for feito.

No início é assim: muita música em troca de um cachorro-quente, ou em troca de sinceros aplausos e sorrisos. Mas perseverança e muito trabalho sempre levam mais longe um artista talentoso.

Existe hoje um circuito de festivais e eventos que contemplam especialmente artistas com deficiências, em diversas modalidades. Nos Estados Unidos, nasceu o programa Very Special Arts, que já se espalhou por mais de 80 países, inclusive o Brasil.

Dentre as ações do programa está o concurso internacional para jovens músicos solistas Rosemary Kennedy, que premia anualmente instrumentistas e cantores de todo o mundo.

No ano de 2003 fui a vencedora na categoria intérprete internacional. Os vencedores se apresentam no Kennedy Center, em Washington, e recebem, além de troféu, um prêmio em dinheiro.

A visibilidade que o prêmio me deu me rendeu mais uma apresentação nos Estados Unidos pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e participações em festivais na Argentina e na Itália, entre várias outras oportunidades.

Na época o movimento do Very Special Arts era intenso no Brasil e pude fazer shows em diversos festivais em vários pontos do país. Essas iniciativas são fantásticas para incentivar, estimular e fortalecer jovens artistas que precisam adquirir experiência. Para mim foram vivências extremamente enriquecedoras e grandiosas, mas é preciso não se acomodar nas facilidades e sair para o mundo. Entendo que esses eventos sejam parte da trajetória e não a finalidade de um artista com deficiência.

Sobre o currículo de um músico iniciante, como em qualquer outra área, vai pesar a bagagem de experiência e de cursos. Parcerias com outros artistas, aparições na mídia e premiações também contam.

No entanto, no caso do artista, nada terá mais peso que um registro de sua performance. Por isso a necessidade de ter sempre à mão um material demo, em áudio ou em vídeo, e de preferência também na internet. Normalmente é mais solicitado de um músico, cantor ou compositor, o release do que propriamente o currículo. O release é um resumo das experiências, englobando apenas as mais relevantes, onde a mais importante delas deve estar no primeiro parágrafo. É legal ter esse outro formato de currículo bem redigido e sempre atualizado, sem se esquecer de colocar nele todos os contatos possíveis.

Quando ainda não se tem um produtor nem um selo, como eu, é constante a busca por apoio, patrocínios e visibilidade. E nisso a internet é uma grande aliada. É incrível o poder que tem a rede; caiu nela, perde-se o controle. E é uma perda deliciosa do controle.

Há uns anos gravei, em casa mesmo, com voz e piano, releituras de 12 músicas do grupo Los Hermanos. A ideia era compartilhar com amigos também fãs da banda, mas um moderador de uma das comunidades do grupo no Orkut postou os arquivos num site para "download" e, pouquíssimos meses depois, meu nome estava em todos os blogs que falavam dos Hermanos. Até hoje, quatro anos depois, recebo mensagens e comentários de todas as partes do país sobre meu trabalho com as releituras.

Hoje as 12 faixas estão disponíveis para "download" no meu site, que mantenho além do perfil e comunidade no Orkut, Twitter, My Space e vários vídeos no YouTube. É preciso explorar todas as ferramentas de que se tem alcance.

Não posso dizer que já alcancei meu objetivo na música, mas sou muito feliz com tudo que fiz e faço. Cantei em orquestras, em grupos de samba e choro, tenho a liberdade de cantar minhas próprias canções, tenho grandes parceiros, já compartilhei o palco com artistas mais que especiais, acabei de estrear na música infantil.

Já vivi com a música momentos que me valeram a existência, mas sei que preciso levar minha voz e minhas mensagens ainda a muitas pessoas.

As trajetórias são únicas, o caminho é diferente para cada pessoa, mas se existe um segredo para o sucesso, em seu sentido mais profundo e abrangente, ele tem tudo a ver com alegria e verdade.

Se o seu trabalho com a música e o resultado dele no mundo lhe proporcionam intimamente a certeza de que é esse o seu lugar e é essa sua missão no mundo, vá em frente que o caminho é esse.

Escrito por Equipe do blog Carreiras às 12h05

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